Já contei aqui que em 2014, entre fevereiro e julho, hospedei vários estrangeiros em casa através do programa de CouchSurfing. Foram 2 franceses, 1 americano, 1 brasileira, 1 alemã, 2 australianos, 1 argelino e 1 neo zeolandês, além de tantos outros que acabei ajudando enquanto estiveram de passagem por Porto Alegre.
Cada um deles mudou de alguma forma a minha vida, me ensinando que preciso de pouco pra viver, que o mundo é bem menor do que eu penso e que é bem mais fácil do que se imagina sair por aí afora de mochila nas costas e mapa na mão, desde que estejamos prontos a abrir mão dos luxos que temos no cotidiano. Mas um deles em particular questionou minhas escolhas de vida, me fez refletir sobre meus planos e principalmente, me certificar mais ainda sobre o rumo que minha trajetória irá tomar em breve. Jerome Wiersma, vulgo Hair Gypsy, é um maluco que vive em Christchurch, uma cidade na ilha sul da Nova Zelândia que em 2011 foi destruída por um terremoto muito violento, que transformou em ruínas prédios históricos e deixou muita gente sem um teto pra morar. Jem, como eu o chamo, é cabeleireiro e tem um salão próprio na garagem da casa onde vive, que é uma espécie de sítio onde ele planta aquilo que come. É um cara jovem, descolado, de feições bonitas, inteligente, simpático e muito carismático. Vendo a situação devastadora de muitos dos seus conterrâneos e da sua própria cidade, Jem resolveu à sua maneira tentar ajudar. E pra isso decidiu sair pelo mundo por 365 dias cortando cabelos e arrecadando dinheiro pra um fundo humanitário que está reconstruindo Christchurch.
Jem chegou na minha casa e na minha vida em maio de 2014 trazendo nas costas uma mochila com aquilo que era suficiente pros 365 dias que ele passaria rodando o mundo. Conheceu alguns dos meus amigos, cortou cabelo de muita gente no centro de Porto Alegre, conheceu pessoas e pediu que eu o levasse pra comprar roupas em alguma loja cujas peças fossem fabricadas aqui no sul. A sua filosofia é a de que temos que ajudar a economia local ao invés de gastarmos nosso dinheiro com produtos importados ou que sejam fabricados na China à base de trabalho escravo. Ele dizia que temos que valorizar o que é nosso, o que temos em casa, e concordei muito com ele. Numa noite, saímos juntos pra comer um churrasco e quando voltamos pra casa, sentamos pra conversar sobre a vida e sobre algumas perguntas que ele havia rabiscado numa espécie de diário que carregava. Eram questões simples, do tipo o que te faz feliz, o que vocês gostaria de ter que não tem, como você gostaria de aproveitar o tempo, qual o seu sonho, entre outras. Ele abriu o caderno e começou a me perguntar com seu inglês carregado de um sotaque kiwi, enquanto eu respondia no meu inglês intermediário com sotaque americano. Á medida que eu ia respondendo, ele ia aprofundando o assunto e me questionando mais ainda sobre aquilo que eu falava. Ele deu um nó na minha cabeça e às 4h da madrugada tive que pedir que ele parasse porque eu ja não tinha mais certeza de nada.
Dias depois ele foi embora de Porto Alegre e seguiu seu caminho pelo mundo, me deixando aqui com mil pontos de interrogação na cabeça que aos poucos foram sendo transformados em certezas. Continuamos em contato direto, acompanho a sua jornada através das redes sociais e me sinto uma pessoa de muita sorte por ter tido a chance de conhecer e hospedar um cara como ele, que tem um propósito nobre para a sua andança e que vê a vida com tanto otimismo, simplicidade e leveza. E ontem à noite um pouco chateada, questionando muito algumas amizades da minha vida e me sentindo só, recebo um cartão postal enviado pelo Jem da Bulgária, onde ele está agora, me agradecendo por tudo o que fiz por ele e me desejando felicidade, paz e amor na minha mudança pra Austrália. Chorei de emoção pelo gesto tão simples e carinhoso de um cara que passou voando pela minha vida, que ta pingando de país em país pra ajudar o seu próprio e que esteve comigo por apenas 4 dias a 8 meses atrás. Nesse momento em que a contagem regressiva pra eu ir embora do Brasil chega no seu 80º dia, esse cartão postal representa muito pra mim e me mostra que amizades podem sim atravessar fronteiras e rodar o mundo e que para um amigo, nada é custoso quando se trata de reconhecer algo de bom que recebeu. Porque convenhamos, um cara que ta mochilando pelo planeta com dinheiro contado, que ta dormindo em sofás e batendo perna o dia todo pelos lugares onde passa, não tinha razão nenhuma pra gastar alguns centavos e minutos pra me escrever um cartão postal, exceto se não me tivesse um pouquinho de consideração por mim. E isso no mundo em que vivemos, onde cada um só olha pro seu umbigo e só lembra que tem amigos quando precisa, vale muito.
Quisera eu ter muitos amigos como o Jem, quisera que o mundo todo tivesse amigos como ele. Sem dúvida seríamos pessoas melhores e mais felizes. Porque um simples cartão postal vindo da Bulgária tem o poder de nos fazer sentir muito menos sozinhas.
Andre Barbosa
O desejo por novidade e por conhecer sempre mais sobre o comportamento humano é o que move esse publicitário carioca, que já mora em Porto Alegre há duas décadas.
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