Definição de “andrógino”: que reúne os dois sexos; que é comum ao homem e à mulher. Atualmente, o conceito de “andrógino” refere-se popularmente mais a uma qualidade estética. Costumamos dizer que uma pessoa é andrógina quando existe uma dúvida, a partir de características estéticas como traços e formato do rosto ou corpo, na hora de identificar o seu sexo. Essa dúvida pode não ser tão gritante. A identificação pode ser imediata, mas a presença de elementos do outro sexo gera várias interpretações. É como olhar para um rosto e ele estar em constante movimento; ora você detecta elementos femininos, ora masculinos. Os traços ora harmonizam-se, ora confundem-se. O que parecia tão certo já não o é mais. Surgem então os mistérios do “andrógino”.
O ser Andrógino na Antiguidade
Historicamente falando, a figura do andrógino é encontrada em diversas culturas. Na Antigüidade, o andrógino significava a fusão de opostos e a conjunção dos sexos. Em todas as épocas e civilizações têm havido cultos à divindades andróginas. De acordo com Mircea Eliade, autora do livro Mythes, Rêves et Mystères (Mitos, Sonhos e Mistérios), “a androginia é uma forma universal e arcaica de exprimir a totalidade e a coincidência dos contrários”. O tema continua sendo discutido pela psicologia, apesar de no nosso século a figura do andrógino ter sido um pouco desprezada pela constante relação com o homossexualismo, de certa forma ainda marginalizado.
Em “O Banquete”, de Platão, Aristófanes diz que Eros, o primeiro dos deuses, tinha ambos os sexos. Diferente de hoje, havia na época três gêneros: o macho, a fêmea e o andrógino. O comportamento rebelde de Eros contra o Olimpo é o que origina a separação dos seres. Após longa reflexão, na dúvida sobre que destino os daria, Zeus opta por enfraquecê-los, reduzindo cada ser à metade, já que eram formados pela junção de dois (homem-homem/mulher-mulher/homem-mulher, o ser andrógino). Atitude um tanto sábia, pois ao mesmo tempo que estariam mais fracos, teriam mais a oferecer, já que estariam em maior número. Cada um andaria ereto sobre suas duas pernas. Separados de sua metade, os seres decidem buscá-la. Os que eram homens buscam uma metade de homem, os que eram mulheres buscam uma metade mulher e os andróginos procuram cada um a sua metade oposta.
As referências com relação à androginia não param em “O Banquete”. No budismo existem representações andróginas de Bodhisattv (aquele que devota sua vida em ajudar outras pessoas). Já no hinduísmo, Shiva e Shakti, os primeiros deuses de algumas versões da cosmogênese hindu, formavam, no princípio, um só corpo, na manifestação chamada Ardhanarisha, o “Senhor Meio Mulher”. E na Babilônia, o deus Lua Sinn era chamado como “Ó, Mãe-Útero, geradora de todas as coisas, Ó, Piedoso Pai que tomou sob seus cuidados o mundo todo”.
O ser Andrógino no Rock
Mais perto da nossa contemporaneidade, o rock também teve vertentes que flertavam com a androginia. Uma delas, o glam rock, predominante na década de 70, era caracterizado principalmente pelas performances no palco e pelo visual. Muita maquiagem, roupas carregadas de plumas e paetês conferiam aos músicos um ar andrógino, fazendo sucesso entre homens e mulheres.
Sem dúvida, o maior expoente desse movimento foi David Bowie. Seu visual andrógino, seus figurinos extravagantes e a incorporação de personagens paralelos, como Ziggy Stardust, transformaram David Bowie em um espetáculo teatral à parte. Como explicado claramente no filme “Velvet Goldmine”, que aborda o estouro do glam rock nos anos 70, o comportamento andrógino tornou-se uma febre, com jovens do mundo todo pintando seus lábios, unhas e raspando suas sobrancelhas. A maquiagem e o glitter eram as ferramentas da trangressão.
A estética andrógina dos músicos ajudava a confundir as pessoas quanto suas preferências sexuais. Talvez porque a androginia tenha sido sempre um fator de total comprometimento com a sexualidade humana. Mick Jagger disse uma vez em 1985, deixando, como a própria androginia o faz muito bem, um certo quê de ambigüidade: “Sou decididamente heterossexual, mas é claro que houve um tempo quem flertei com a androginia, e daí?” Ainda na música, não podemos esquecer do maquiado Boy Geroge, ícone dos anos 80, e do excêntrico Marilyn Manson, que já exibiu seu corpo nu, sem pelos e com seios em um de seus mais recentes trabalhos, deixando muita gente confusa e boquiaberta.
O ser Andrógino na psicanálise
A psicanalista Lúcia Ozório discute ainda mais profundamente a questão da androginia e suas conexões. Segundo ela, a androginia não está apenas no campo estético: ela nos insere no campo da sexualidade quando associada a nossa multiplicidade. A sociedade, por sua vez, exerce um peso muito grande neste campo. Ser homem ou ser mulher significa desempenhar uma série de papéis sociais, cumprir exigências e se submeter à uma identidade sexual que nos faz felizes. Entretanto, a angústia aparece diante das nossas fantasias mais ocultas. “Vem então a androginia e questiona toda esta sociedade de controle. Face ao determinismo, ela nos apresenta a indeterminação, que adquire uma estranha visibilidade a qual nossos olhos não estão acostumados: a da não identidade sexual. Faz as nossas certezas vacilarem diante da fascinação pela incerteza”, explica.
Independente de qualquer ponto de vista, o que está em jogo é a constante utilização de elementos que confiram ao homem a capacidade de explorar a sua criatividade e suas potencialidades. Quanto mais mistérios e dúvidas encontrarmos pela frente, mais chances de formular novos pensamentos e combinações. “Falar de androginia é falar do devir, este constante vir a ser que tanto nos amedronta e nos enfeitiça. Ser andrógino é parecer homem e mulher e planta e animal e bruxo e flor e sátiro e fauno, compondo uma estética singular, a estética da multiplicidade que vaga, vai por ali e por aqui sem precisar de modelos prévios para se movimentar, para acontecer”, completa Lúcia. Assim pensando, o “andrógino”, em qualquer esfera de avaliação, só contribui para o aperfeiçoamento de nossa condição humana.
Por Alexandra Marchi
Andre Barbosa
O desejo por novidade e por conhecer sempre mais sobre o comportamento humano é o que move esse publicitário carioca, que já mora em Porto Alegre há duas décadas.
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