O que a noite conta – Gamba Jr.

Falar sobre OqueANoiteConta é, antes de mais nada, falar sobre a MOOD, em sua eterna função de laboratório de idéias e vivências. Gamba Jr., assim como muitos que por aqui passaram, soube aproveitar bem a oportunidade. Designer, doutourando em Psicologia, acrobata e integrante da Cia. NósNosNós – Tragédias e Comédias Aéreas, Gamba enxergou na MOOD a possibilidade de interagir com o suporte cibernético, dando início ao processo que se desdobrou, 2 anos depois, no livro de contos recém-publicado pela 7 Letras, OqueANoiteConta.

Foi em meados de 2000 que tudo começou. Segundo Gamba, a idéia surgiu de uma compulsão, “Há muito tempo – desde minha infância – que eu sou obcecado pela produção de imagens narrativas. Crio personagens, ambientes e tramas como quem vai à terapia, tomando muita precaução para não parar jamais, com o risco de enlouquecer. É desse processo obsessivo que acaba saindo todos os meus projetos. Diante de qualquer suporte que eu me encontre eu começo a contar histórias, e quando não há de fato esse suporte – ou pelo menos não de maneira convencional – eu intervenho na realidade criando personagens em farelos de pão ou nos rostos que encontro na rua, ou seja, invento uma mídia para essa obsessão”.

A compulsão – que neste caso, podemos por assim dizer benéfica – proporcionou a aproximação de Gamba com a MOOD. A proposta era que o site, a partir de seu atributo conceitual: noite, e físico: internet/tecnologia, servisse de suporte à experiência dos contos que surgiam a cada edição, formando um todo fragmentado, situação comum em nossa vivência tual.

Trazer à noite para a narrativa presenteou o site com alguns personagens fantásticos, e outros reais. Foram mariposas, vampiros, prostitutas, lixeiros personagens da noite que, a cada conto, se transformam em nós mesmos, leitores. O denominador comum – noite – é acrescido de uma tênue crítica contra hábitos estão presentes em todos nós. É o caso de Tenório, do conto intitulado “Michês”. A princípio, acredita-se que este será um michê mais “tradicional”, desses que vemos em todos os cantos. Entretanto, o que encontramos é um michê de uma pessoa só para quem vende o corpo e a alma, diariamente. E é claro que logo nos vêm a cabeça: até que ponto não somos nós mesmos, diariamente? Até que ponto não vendemos nossa alma em troca de moedas e ilusões voláteis, efêmeras?

No conto “Lixeiros”, então, essa abordagem chega a doer, principalmente quando vemos caracterizada a questão dos direitos humanos no sentido inverso do desenvolvimento financeiro e produtivo. A impressão que permeia não apenas esse conto, mas todo livro, é que a noite surge como uma metáfora para nos expor aos segredos do mundo.

Nesse sentido, a definição de antrophos por Umberto Eco, citada por Gamba no livro e ponto de partida para seu trabalho, como “aquele que reconsidera o que viu” não poderia estar melhor colocada, pois concluímos que a noite se define como o espaço no qual podemos reconsiderar nossas atitudes, hábitos, papéis, vidas. Em OqueANoiteConta, Gamba segue Eco na medida em que reconsidera, reconstitui e resgata a vida. “A idéia de repensar o humano é para mim indispensável, deve nortear desde o gesto mais concreto até o ato mais místico, pois não são privilégios de nosso tempo esquemas que oprimem esse “humano” em posturas totalitárias. Há uma tradição histórica de opressão do indivíduo pelos mais diversos tipos de equívocos, sejam os governos ditatoriais, sejam os regimes econômicos injustos, as violências físicas, as construções filosóficas discriminadoras, os entretenimentos esvaziados de sentido, as práticas culturais alienantes, as relações familiares castradoras”.

Com tanta opressão, a noite de Gamba nos ajuda a reconstruir nas sombras, buscando uma luz que não necessariamente está no dia, mas sim internamente, na existência de cada um de nós.